JÁ NÃO HÁ BANDIDOS ASSIM
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“Se eu quisesse, enlouquecia. Sei uma quantidade de histórias terríveis”, dizia Herberto Helder em “Os Passos em Volta”. Se eu quiser estou sentada há trinta e quatro anos atrás na sala de audiências sombria do tribunal de Monsanto, era Janeiro de 1984. O julgamento iniciava-se com a leitura da acusação perante dezenas de arguidos separados do tribunal e do público por um vidro á prova de bala. (...) Nas alegações finais defendi um quadro de provas e um juízo de certeza acerca da participação de todos aos arguidos naqueles assaltos, graças ao arrependido. Aguardei a leitura do acórdão porventura, com uma ansiedade igual á do arrependido. A decisão foi justa, 25 anos de prisão para os principais arguidos e 3 anos de prisão suspensa na sua execução, para o arrependido. Saiu dali com segurança policial. Dois anos depois, num outro julgamento sobre uma rede de tráfico e viciação de veículos furtados tive uma informação judicial do arrependido, proveniente de outro processo. Ele tinha sido entretanto, condenado a oito anos de prisão por chefiar essa rede, sem direito a qualquer atenuação extraordinária. Senti uma enorme e inexplicável tristeza, relembrei a veemência com que defendi a necessidade de compensar legalmente quem auxilia a justiça e nunca, nunca me arrependi».
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