107 DEGRAUS
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Resisto, vou ao tribunal da parte da tarde, subo a escadaria íngreme que liga as ruas da Baixa ao Castelo de São Jorge, não há gente, outra vez aquele silêncio. A escadaria é bonita, tem 107 degraus contados que sempre me alegraram no encanto de chegar ao alto e contemplar a cidade. (...) A paisagem das ausências agudiza-se no regresso a casa que já nem é casa, parece outra coisa (...) Preciso de combater esta expansão convulsiva do recuo, do isolamento irracional, evitar o efeito de espelho eletrocutado, citando Helberto Helder na “carta ao silêncio”. (...) Mal habituados que estávamos a não saber. (...) Lutar contra o vírus malicioso não é um objetivo de combate egoísta e cobarde, tem que incluir a luta contra a miséria, a desigualdade, a aniquilição do ser humano. Provavelmente vamos aprender tudo de novo, num mundo virado do avesso. Só que precisamos de ação nunca de asfixia. (...) Ninguém sabe o desfecho desta história, permanecem no ar os cambiantes das partituras decadentes e poderosas da música, o corpo começa sempre onde acaba, e há um clarão lá em cima da clarabóia. 107 degraus, 107, todos os dias, muitas vezes».
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